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A chuva

terça-feira, 28 de junho de 2016

Divulgação Tumblr
Estava cansada daquele relacionamento onde sempre deu mais do que recebeu, onde sempre amou mais do que foi amada. Um relacionamento desgastado em que acreditava que algum dia poderia dar certo.
Se não deu certo em três anos, porque seria diferente agora?
Estava cansada de lutar, cansada de correr atrás, cansada de dar uma segunda, terceira, quarta chance...
Sempre teve a mania de achar que as pessoas sem importariam com ela da mesma forma que ela se importava com as pessoas.
Mais uma vez se via perdida. Um abismo entre ela e os outros. Um abismo entre ela e a sua felicidade.
O que era felicidade afinal? Será que algum dia foi realmente feliz?
Hoje era seu aniversário. 25 anos.
Quando a vida começa de fato? Com qual idade se aprende a viver?
Então resolveu que era hora de mudar. Trocar vírgulas por pontos finais. Recomeçar. Ela precisava viver. Precisava de sua liberdade.

“Pra mim chega. Não dá mais”.

Não dava mais para viver mendigando amor.
  
- Por favor, vamos conversar, eu prometo que dessa vez será diferente, não me abandone, eu não sei viver sem você. – Ele disse ao telefone.
Suspirei. Quando aquilo teria um fim?
Ele queria conversar, ok. Vamos conversar.
Fui até o aparamento do meu ex-namorado. Não, eu não ia voltar com ele. Passei dias tomando coragem para terminar, para dizer tudo que estava entalado em mim. Eu não sou tão masoquista assim. Pelo menos não mais.
“Você nunca amor ninguém além de você mesmo” – E era verdade. Ele nunca me amou e isso doía mais do que qualquer pedra no rim ou queimadura de terceiro grau.

É possível reconstruir um coração que foi estilhaçado em mil pedaços? A dor de um coração partido corrói a alma.

Havia um bilhete na porta “Entre sem bater”. Entrei e a luz estava apagada. Ascendi. Quase cai para trás. Congelei.
“SURPRESA” – todos gritaram ao mesmo tempo.
Aquilo era para mim? Não poderia ser!
Eu nunca tive uma festa surpresa antes. Nem de aniversários eu gosto para falar a verdade. E aquelas pessoas? Quem eram aquelas pessoas? Amigos? Poderia contar nos dedos de uma mão quantos deles realmente se importavam comigo. É difícil encontrar amigos verdadeiros hoje em dia, e sinceramente ainda não sei se encontrei os meus.
Vieram em minha direção como abutres vão em direção à carniça.
Senti vontade de correr. Correr sem parar. Correr sem rumo.
Gritar.
Gritar o mais alto que pudesse para que todos soubessem da minha dor.
Minhas pernas não se moviam. Nenhum som saia da minha garganta.
Abraços, beijos, feliz aniversário de todos os lados. Presentes. E ele. Veio em minha direção e me abraçou.
“Parabéns, meu amor” - Desde quando ele me chama de meu amor?
Não. Ele não fez isso. Não pode ter sido ele.
Mas foi. 
Minha cabeça poderia ser comparada a uma panela de pressão. A qualquer momento explodiria.
Eu era bomba atômica ambulante.

Me dei conta de que ali não era mais meu lugar. Não era naquele abraço que eu me sentia em casa. E pela segunda vez no período de dois dias eu pensei em mim em primeiro lugar. Não sorri, não agradeci. Apenas sai correndo daquele santuário de hipocrisia.

~~~~x~~~~

Agradeceu mentalmente por suas pernas finalmente a obedecerem. Correu o mais rádio que conseguiu até chegar a uma praça a alguns quarteirões de onde se encontrava anteriormente.
“25 anos, e agora?” – era a única coisa que conseguia pensar.
Gotas começaram a cair em seu rosto, misturando com as gotas de seu suor. Olhou para cima e viu um céu escuro e carregado. Não havia nenhum tipo de proteção, mas ela não se importava. Sempre sentiu um enorme vazio e deslocamento como se não pertencesse a nada. Como se fosse feita para outro mundo que não esse.
Os respingos começaram a aumentar a intensidade. Em poucos segundos estava coberta das gotas que escorriam por seu corpo, com olhos perdidos no horizonte foi sentindo a chuva aos poucos tomar conta de si até a água inundar por completo. Como em uma dança, a aniversariante abriu seus braços e deixou se embalar pelo ritmo das gotas em seu corpo. Nunca antes havia sentido tal sensação de liberdade.


Em determinado instante silenciou a mente dos barulhos interiores e ficou olhando ao seu redor. Observou as pessoas a sua volta, todas devidamente protegidas em seus guarda-chuvas, em suas capas, embaixo de toldos das lojas. Todos a encaravam. O que será que estavam pensando? Que ela era louca? Que iria pegar uma pneumonia?
Então ela viu um homem de cabelo castanho claro bagunçado, de barba por fazer e olhar penetrante. Quanta intensidade poderia haver em um simples olhar? Não tão simples assim para chamar-lhe a atenção daquela forma tão avassaladora. O olhar daquele homem poderia ser comparado a um oceano de mistérios.
 “Eu adoraria mergulhar e me perder” – Ela não entendeu muito bem o súbito pensamento, mas sorriu interiormente com aquela conexão momentânea.
Assim como não entendeu em que momento deixou de sentir o frio da chuva, para ser agasalhada por uma forte onda de calor percorrendo seu corpo.

Os olhos azul feito o céu de primavera continuava a encarando.
Os olhos castanhos feito folhas secas de outono retribuíram o olhar.

Quando foi que o tempo parou?

Ele não estava embaixo do toldo como os outros, ele estava vulnerável, sem nenhuma proteção, assim como ela.

- Você vai acabar pegando um resfriado se continuar nessa chuva – ele falou se aproximando. Próximo demais. Quente demais.
 Arrepio.
- Posso dizer o mesmo para você.
Ele continuou a encarando como se tentasse desvendá-la Será que ele conseguiria?
A chuva aumentou ainda mais sua intensidade, ficando quase impossível se olharem e se ouvirem.
- Tem uma cafeteria aqui perto, a gente pode ir se secar e tomar um cappuccino – Ele disse quase gritando para ser ouvido por conta da tempestade.
Não pensou. Apenas foi.

~~~~x~~~~

 A cafeteria era quente e aconchegante. Tinham ido ao banheiro tirar o excesso de água e quando voltaram sentaram em uma mesa mais afastada coberta por um plástico para não correr o risco e estragar o estofado. A garçonete serviu os dois cappuccinos.
[...]
- Você dançando na praça... Tão leve e ao mesmo tempo cheia de mistérios e segredos. Acho que ninguém mais percebeu então me sinto como parte desse segredo. Meu e da chuva.
De quantas maneiras possíveis uma pessoa pode ficar sem graça? Aquele homem era real?

Silêncio. Goles de café quente e olhares.

- Eu seria muito intrometido se quisesse saber o te levou a tomar um banho de chuva? Apesar de acreditar que não tenha sido apenas um simples banho de chuva casual.
- Hoje é meu aniversário. – Porque ela se sentia tão à vontade na presença daquele desconhecido, não poderia explicar nem se quisesse...
- Paz interior é um ótimo presente para si mesmo...
- E liberdade também. – Ela completou ainda perplexa.
- Estava se libertando do quê?
- Não do que, mas sim de quem... Meu ex-namorado. E alguns falsos amigos, afinal... Esse aniversário estava sendo uma droga... Até começar a chover.
- Bom, eu desejo que você tenha sempre a quem amar, e mesmo quando estiver cansada, ainda exista amor em você para recomeçar. Aniversário é um bom momento para recomeços.
Ela sorriu. Ele sorriu.


Naquele momento os dois perceberam que queriam ver aqueles sorrisos pra vida inteira. Ainda que uma vida fosse muito pouco.

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